29-Abril-2008

o que é o psd?

josé cláudio vital

o que é o psd?

   só algures no meio e por força da onda laranja que varreu o país entre o primeiro e o terceiro governos de cavaco silva, aderi formalmente ao psd, mesmo depois de ter lamentado não votar (por não ter idade) no delirante esteves cardoso, candidato pelo ppm ao parlamento europeu em 1987. e porque que carga de água o psd?
   se fosse pela lição de cavaco silva, estaria agora em paz, há muitos meses convencido da utilidade de um partido desgastado e dividido: entre sá carneiro e todos os outros, entre cavaco e balsemão, cavaco e salgueiro, entre durão e lopes, entre mendes e menezes, entre ferreira leite e passos coelho, o psd nunca foi outra coisa. um partido de enormes e arrebatadas paixões, a maior parte das vezes mais fogo-de-vista do que verdadeira discussão, sempre longe de grandes debates ideológicos, sempre muito perto de divisões definitivas.
se fosse pela ideologia estaria condenado a orbitar, quer porque as diferenças entre psd e ps são crescentemente mínimas, quer porque as minhas simpatias liberais não têm acolhimento em nenhum destes partidos. talvez tenha sido, afinal, pela história do pós 25 de abril e, em particular, pela enorme e clara diferença entre sá carneiro e soares. a politização das conversas familiares cedo me trouxe (quer por causa da enorme figura de sá carneiro, do seu timbre e da sua inteligência, quer a propósito da triste "descolonização possível" de soares, almeida santos e de outras personagens inenarráveis) duas certezas tão óbvias como claras: era tão inevitável ser do psd, como impossível confiar nos homens que haviam dado angola ao mpla e abandonado tantos milhares de "retornados" à sua sorte. depois, com a triste e desastrosa tomada da empresa onde o meu pai trabalhava por uma comissão de trabalhadores comunista, intolerante e anti-democrática, a coisa ficou ainda mais clara: não era só uma questão de me definir ao centro, as coisas eram como eram e eu seria de direita.
com o tempo, habituei-me a ver o psd como um partido de boa gente, onde estavam pessoas que ajudavam os outros, homens e mulheres de trabalho, líderes natos, onde foi candidata a minha mãe (lembro-me dela, num comício no cineteatro, gravidíssima com o tiago na barriga), o partido onde estava o primo mais velho e admirado, por onde passaram muitos homens e mulheres que ainda hoje admiro e admirarei. foi esse partido que tomou um certo lugar à direita que me chamou afinal, mesmo alguns anos depois. não sei se esse terá sido o tempo de ouro do psd, o tempo que não se repete, o partido que não volta. alguns acham que sim e criticando os políticos que fizeram um "novo" psd, criticam-me a mim que faço parte dele. o problema é que não sabemos bem que raio é este novo psd, que não se define há demasiado tempo: social-democrata não é, liberal está longe de ser; muitas vezes duvido se é de direita, algumas vezes tenho certeza que é de esquerda. no meio de tudo isto, lembro-me de quem uma vez me disse que nem cavaco se definiu - e consigo concordar.
   talvez o segredo do psd seja ser essa pitoresca mistura: saída em parte, é certo, da ala liberal da assembleia nacional, mas feita por gente do norte ao sul, de esquerda e de direita, de crentes e ateus, de conservadores e progressistas, de monárquicos e republicanos, de tecnocratas e poetas, de cépticos e de visionários. o partido mais português de portugal, aquele que não encontra paralelo em nenhum outro país da europa, o partido que sempre se deu mal com os rótulos, as siglas, os símbolos, os hinos, está à beira de nova decisão sobre quem toma conta da papelada e eu à beira de nova crise de dúvidas. não sobre as pessoas, mas afinal sobre a essência, o porquê da escolha de partido, que há muitos anos não diz ao que vai, nem sequer por onde quer ir.
   sonho, por isso, que uma destas almas concorrentes diga, afinal, o que nos separa dos outros, o que faz do psd um partido diferente. que diga o que queremos para portugal, o que queremos para os portugueses e de que forma o queremos fazer. talvez essas ideias andem perto das minhas, talvez me identifique mesmo com elas e então me decida pagar as quotas a tempo. caso contrário, isto será como ser adepto de um clube de futebol e como em 37 anos fui campeão 16 vezes (eu sei, sou um portista mal habituado), sou demasiadamente exigente.

josé cláudio vital


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