Carlos Costa
jornal de estarreja (je) - ter apenas 27 anos, e estar num patamar tão elevado do sport lisboa e benfica é uma grande aventura para quem é tão novo e começou há relativamente pouco tempo a vida profissional como fisioterapeuta?
carlos costa (cc) - sim é verdade. este é já o quarto ano que estou no benfica, mas chegar ao patamar mais elevado do futebol, ou seja, à equipa sénior foi só este ano. há três anos comecei com os mais pequenos: escolinhas, iniciados, juvenis, juniores e também com a equipa b. depois desta última ter acabado, isto há cerca de dois anos, fui trabalhar com os juniores. no ano seguinte, fui convidado pelo enfermeiro rudolfo moura e o dr. joão paulo almeida, o director clínico do sport lisboa e benfica, para integrar a equipa profissional de futebol sénior, o que aceitei com muito orgulho.
je- sabe se existiam muitos candidatos para o seu lugar? foi difícil chegar a fisioterapeuta mesmo das camadas jovens?
cc - se calhar o mais difícil foi lá ter entrado. depois foi tudo uma sucessão de bons resultados, de boas recuperações nas camadas jovens, até surgir o convite para fazer parte equipa senior.
je - este foi então um trabalho contínuo?
cc - exactamente. não tive que passar, como acontece com a maior parte das pessoas, por hospitais, clínicas e demonstrar primeiro aí o meu trabalho. comigo foi ao contrário: entrei logo numa equipa de futebol da 1ª liga assim que acabei a faculdade. tudo aconteceu quando me voluntariei para um estágio de seis meses, ainda antes de terminar o bacharelato. assim que concluí o tempo de estágio, propuseram-me um contrato de um ano. aceitei e continuei, então, no sport lisboa e benfica, ao mesmo tempo que continuava os estudos para fazer a licenciatura. da parte da manhã trabalhava no clube, nas camadas jovens, e da parte da tarde estava na faculdade; achei que deveria ter, pelo menos, o grau de licenciatura pelo facto de estar a trabalhar com a área desportiva, bastante mais exigente, quer ao nível dos conhecimentos quer ao nível dos prazos. também ao nível pessoal foi muito importante para mim ter completado aquele grau de estudos e, em 4 anos, ter feito todo este percurso.
je - voltando um pouco atrás, que é que fez exactamente nas camadas jovens? em termos físicos o que é que é feito junto destas camadas?
cc - basicamente, tanto nas camadas jovens como na sénior, todas as equipas entram para vencer, mas no benfica sente-se mais essa responsabilidade porque, pela massa associativa e pelo historial, o "peso" da camisola e o "peso" daquele símbolo é muito maior. depois, o trabalho que nós temos é identificar correctamente a lesão do atleta, fazer um bom plano de recuperação, de forma a evitar sequelas, e também um plano rápido para poder integrá-lo no plantel no próximo jogo. é muito importante ser bem recuperado no menor tempo possível, ficar apto para ir para o campo e dar o seu melhor.
je - mas só recuperam os atletas de lesões ou fazem também prevenção para o aparecimento de lesões?
cc - nós também fazemos prevenção. trabalhamos sempre antes, durante e após o treino. muitas vezes um atleta sente-se cansado: faz a parte inicial do treino, por exemplo, e a outra parte, que se calhar tem uma preparação física maior, é retirado e realiza um trabalho específico connosco. isto tanto acontece na equipa sénior como na formação, como já disse. outro exemplo: se um atleta está em sobrecarga e com um elevado risco de lesão, nós temos que o retirar do treino e fazer um trabalho específico com ele, para prevenir o aparecimento dessa potencial lesão. nas camadas jovens se calhar não damos tanta atenção porque quando se é adolescente, quando se tem entre os 12 e os 18 anos, os músculos têm muito mais resistência e a intensidade de treino é bastante diferente daquilo que podemos encontrar num escalão ao mais alto nível como é a 1ª liga e as competições europeias. é que a carga de jogos e a carga de treino físico é muito superior e, se não tivermos isso em conta, os músculos e as articulações podem correr riscos, obrigando-nos a fazer um trabalho muito minucioso de prevenção, e até mesmo psicológico com os jogadores. a nosso preocupação é garantir que o atleta esteja bem no dia do jogo e que aquela dor, que ele tinha sentido, por mais pequena que fosse na segunda-feira, tenha desaparecido no domingo, ou até mesmo antes do dia do jogo. é importante para o departamento clínico garantir que o jogador vai estar apto e que a dor vai desaparecer. voltando ao aspecto psicológico no tratamento do jogador, nós também temos esse papel junto do atleta. trabalhamos com um psicólogo, mas quem está diariamente com o atleta, somos nós, a equipa técnica do benfica, que temos que estar sempre em consonância.
je - agora que chegou à equipa principal do benfica, quais são as diferenças que sente em relação ao trabalho que é feito no plantel sénior e ao que fez nas camadas jovens? sente uma maior pressão agora que chegou ao escalão máximo?
cc - obviamente que sim.
je - e porquê? é também um escalão onde se exige mais?
cc - claro. como disse, e bem, é o escalão máximo, a 1ª liga. passamos a ter mais responsabilidades pois é um escalão muito mais competitivo. veja que estamos à frente de atletas que valem uma fortuna. eu, a esse propósito, tenho até um episódio que não esqueço: um dia, durante um tratamento de um atleta, ele disse-me num acto de brincadeira: "cuidado aí com essa minha perna, porque ela vale 10 milhões de euros!"
je - isso exige cuidados redobrados?
cc - concerteza que sim. 10 milhões de euros é muito dinheiro e temos esta responsabilidade muito grande de manter operacional os valiosos recursos humanos do clube.
je - e em toda uma época, quando é que vocês sentem mais pressão? no inicio, no meio ou no fim do campeonato?
cc - bem, como só cheguei esta época ao plantel sénior, sinto que as coisas correram de uma forma no início da época e que agora correm de maneira diferente. é claro que nesta altura sentimos uma pressão maior. nós, os jogadores, a equipa técnica e até os próprios adeptos, todos sentimos uma pressão maior.
je - por parte da comunicação social também devem acabar por sentir essa pressão? por exemplo, quando um atleta se lesiona e a imprensa começa a especular sobre o assunto, também sentem essa pressão?
cc - inevitavelmente que sim. geralmente quando a equipa técnica lê os jornais desportivos, e fala-se de um atleta do benfica, por muito mais que se olhe para as outras páginas dos jornais ou outras equipas, as noticias sobre esse jogador acabam sempre por captar toda a nossa atenção. mas estas são situações com as quais nós já estamos habituados a lidar e são a consequência da notoriedade do clube, que falávamos lá atrás. são diversas as situações em que dão até mesmo a notícia de um jogador que, não sabendo se ele irá estar apto ou não a jogar num determinado jogo, a comunicação social já o dá como certo.
je - falando do clube em si, como é que é o ambiente no sport lisboa e benfica?
cc - é um ambiente muito acolhedor. é claro que é uma alegria muito grande quando são alcançados bons resultados, e essa alegria é passada para fora, é sentida por toda a gente, desde os jogadores até equipa técnica, onde se inclui o departamento médico, os roupeiros, entre outros. todos ficam muitos contentes quando o clube ganha. quando não ganhamos, todos sentimos a tristeza.
je - quando é que há mais stress nos jogos? antes das competições europeias? antes de enfrentar o porto ou o sporting?
cc- geralmente é sempre antes das competições europeias ou antes de um grande jogo. não digo que seja um nervoso mas, todos nós sentimos que temos que nos esforçar para que a equipa vença. temos que enfrentar o adversário e ganhar. aliás, se calhar o nervosinho miudinho existe sempre. uns lidam melhor com isso, outros não. e eu não sou jogador. mas, por exemplo, quando um atleta nosso falha um golo à boca da baliza, é normal que se fique irritado. e não sou só eu que fico assim. grande parte da equipa técnica sofre com uma situação destas, como aliás vejo em todas as outras equipas. às vezes sofremos de tal forma, que as pessoas nem imaginam.
je - esse nervoso e esse stress antes de um grande jogo nota-se também na parte física dos atletas? vocês acabam por ter mais trabalho nessa altura?
cc- sim, um pouco. por exemplo, quando há uma grande carga de jogos e de treinos, quando temos dois jogos numa semana é muito mais frequente acontecerem lesões. nessas alturas existe uma sobrecarga para o atleta. se ele joga os 90 minutos de jogo, e se nós não fizermos um trabalho especifico com ele, é normal que ao fim de 10 ou mais jogos, o atleta comece a ter uma dor aqui, outra acolá. eles não são de ferro. nenhum atleta consegue estar a cem por cento depois de tantos jogos. umas vezes o atleta está mais próximo da sua condição física, outras está mais abaixo, mas nem sempre é possível que ele esteja a cem por cento.
je - tem algum jogador preferido no plantel do benfica? há algum por quem nutre uma simpatia especial, certamente? há sempre simpatias, não há?
cc - há simpatias. claro que há simpatias. eu dou-me bem com todos os jogadores. simpatizo mais com alguns. tenho um à vontade diferente, porque são pessoas com quem estou mais tempo devido às lesões, que é quando precisam mais de nós. nós acabamos por ser, quer queiramos quer não e por força das circunstâncias, não só o fisioterapeuta, mas também o amigo.
je - não quer revelar nomes?
cc - não. eu gosto de todos os jogadores, mas há um ou outro com quem me dou melhor, como acontece em todos os nossos locais de trabalho. e estando numa equipa de futebol como o benfica, onde há jogadores de muitas nacionalidades, onde se fala português, espanhol, italiano, francês e inglês, existem factores que às vezes nos aproximam mais de um ou outro atleta.
je - e é necessário ser-se poliglota para se lidar com jogadores de tantas nacionalidades diferentes?
cc - não, não é necessário. é preciso ter uma vaga noção de todas essas línguas, pelo menos para nós podermos comunicar um pouco com eles.
je - agora deixando um pouco de lado o carlos costa do benfica e falando do carlos costa de pardilhó. o que é que este carlos fez antes de ir para a escola superior de tecnologias da saúde de lisboa? o que é que fez em termos desportivos?
cc - frequentei a escola primária em pardilhó, fiz o 5º e 6º ano na escola prof. egas moniz, em avanca e regressei a pardilhó para frequentar o 7º, 8º e 9º ano, que tinha, entretanto aberto. do 10º ao 12º ano, frequentei a escola secundária de estarreja, onde considero que foi a fase mais importante da minha carreira pessoal e de estudante, antes de entrar para a universidade. ao nível desportivo, joguei andebol durante nove anos no saavedra guedes, em pardilhó. depois fiz canoagem durante 4 anos, mas nunca em alta competição. não era bom, nem era mau. era médio.
je - mas não fosse para lá, se calhar hoje não estava no benfica.
cc- é verdade, se calhar não. mas eu também enviei para lá o meu currículo a voluntariar-me, e foi a partir daí que tudo começou. fiz logo amigos, entre eles o mister nené! até aos dias de hoje tenho sempre trabalhado com uma grande equipa.
je - depois do benfica, qual é o seu maior sonho?
cc - eu não costumo sonhar muito. isto com o benfica aconteceu porque tinha que acontecer. nós temos é que lutar e enfrentar a vida da melhor maneira possível.
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